Entenda como funciona a devolução de produtos no pós-consumo ao fabricante.
Para muitos, este é o mecanismo – já regulamentado na Europa – que vai salvar o
planeta das montanhas de lixo eletrônico. No Brasil, a legislação se
arrasta.
Logística é um processo que pode ser dividido em várias etapas: envolve
compra e venda, devolução de mercadoria por motivo de desistência ou de defeito
e, finalmente, se preocupa com o destino de um produto ao final de sua vida
útil. A preocupação da Logística Reversa (LR) é fazer com que esse material, sem
condições de ser reutilizado, retorne ao seu ciclo produtivo ou para o de outra
indústria como insumo, evitando uma nova busca por recursos na natureza e
permitindo um descarte ambientalmente correto. Parece simples e inteligente, mas
o processo ainda não funciona bem.
Nos Estados Unidos, as pessoas
normalmente têm duas ou três garagens em casa, sendo uma delas desviada de sua
função principal: vira depósito de entulhos. Boa parte dele é formada por
equipamentos velhos e sem uso que estão abandonados - mas guardados - porque não
se sabe o que fazer com aquilo.
Quem conta isso é Gailen Vick, presidente
da
RLA -
Reverse Logistics Association, um especialista de mercado que
conhece bem os gastos do país com Logística Reversa de mais de US$ 750 bilhões
por ano mas que afirma, categoricamente, que as empresas não prestam muita
atenção nisso, especialmente porque não têm consciência de quanto dinheiro
poderia ser economizado com a adoção da prática.
“Ser ambientalmente
correto afeta a satisfação do cliente. Se você não faz porque é ambientalista,
faça pelo lucro e pela imagem corporativa. O que é lixo, hoje, pode valer
dinheiro se for bem empregado no futuro”. Mas além do desconhecimento do
assunto, existe ineficiência na própria implementação da LR, que exige, de fato,
uma estrutura complexa para recolher, armazenar e tratar resíduos e um
investimento inicial alto.
“E quais são as ferramentas usadas para medir
a eficiência da Logística Reversa? Se você não sabe mensurar, como vai falar que
tem um problema?”, questiona. De acordo com Vick, nem mesmo os CEOs sabem muito
bem como executar o processo, por isso, eles devem ser educados sobre os valores
recuperados, pela própria cultura da empresa.
Logística Reversa é a
estratégia que, na visão de André Saraiva, diretor de Responsabilidade
Socioambiental da
Abinee – Associação Brasileira da Indústria Elétrica e
Eletrônica – permite um aumento de participação da empresa no
mercado a partir de um programa de take back. “A conscientização e a destinação
ambientalmente adequada de um produto pode trazer, a esse consumidor, o
entendimento sobre uma marca muito mais responsável e direta do que qualquer
comercial. É uma aposta no consumo consciente”,
diz.
CONSCIENTIZAÇÃO BASTA?Esse é outro ponto
fundamental. Além da responsabilidade dos fabricantes ao se desfazerem daquilo
que criaram com o menor impacto para o meio ambiente, precisa haver o
compromisso dos clientes de fazer a melhor compra e não se guiar apenas pelo
menor preço. A LR reversa começa no momento em que o produto é produzido, se
estende ao ato da compra e reinicia o ciclo quando é devolvido como
matéria-prima para ser reinserido.
Há inúmeras empresas que diminuíram o
tamanho das embalagens de seus produtos sem afetar seu conteúdo para gerar menos
lixo, que montam os equipamentos que comercializam pensando na facilidade que
terão em desmontá-los para reciclá-los depois e claro que procuram utilizar
materiais reciclados e, principalmente, recicláveis em sua confecção. Mas o
consumidor leva isso em consideração?
Alguns supermercados como
Wal-Mart e
Pão de Açúcar buscam incentivar o maior consumo de
produtos com algum diferencial de sustentabilidade e a não utilizar sacolas
plásticas. Essas são iniciativas de conscientização mais difundidas no país e
que começam a funcionar, embora a maioria dos clientes ainda escolha a embalagem
maior, mais bonita e que for mais conveniente para o bolso.
Quando o
assunto são os eletroeletrônicos, entram em cena outros elementos e o preço pesa
cada vez mais, por se tratar de produtos mais caros, mas que podem ser
facilmente adquiridos em locais impróprios. O mercado negro, que comercializa
todo tipo de máquinas ilegalmente, é constantemente alimentado por consumidores
que buscam por valores mínimos e é aí que reside um grande nó da Logística
Reversa.
Em alguns países estrangeiros como Alemanha e Japão, a ideia de
colocar o que não serve mais na calçada funciona. No Brasil, ações
institucionais para recolher equipamentos encalhados em casa e abandonar o que
quer que seja na rua são um estímulo para que, aqueles que compraram sua máquina
digital e seu pen drive em camelôs, que continuem a fazê-lo. Afinal, é assim que
um produto falsificado ou, no mínimo, importado irregularmente e a
responsabilidade de se livrar dele deixam de ser do fabricante, que não sabe do
paradeiro do seu produto original; do vendedor, que é um trabalhador informal e
não oferece garantia e do consumidor, que não tem a quem recorrer, dadas as
circunstâncias. Em caso de falsificação a situação fica ainda pior porque não há
preocupação com o tipo de material utilizado nem uma fábrica que seja
oficialmente responsável por nada.
“Isso é a anistia do comportamento da
ilegalidade, um processo em que não existe educação ambiental. E como se sente
quem comprou com nota, pagou os impostos, e utilizou a ferramenta legal?
Geralmente, as pessoas se tornam conscientes ou demovidas com as questões
ambientais mais por pressão da mídia e da sociedade, mas quanto, de forma
efetiva, elas contribuem?”.
O EXEMPLO EUROPEUNa
União Europeia, a LR é pautada por duas diretivas que se complementam:
WEEE – Waste Eletrical and Eletronical Equipment - e
RoHS -
Restriction of Hazardous Substances, em vigor desde janeiro de
2006. A primeira tem como objetivo eliminar a quantidade de lixo eletrônico que
chega aos aterros sanitários, por meio da coleta e da reciclagem. Os aterros,
além de terem um alto custo para os municípios, oferecem riscos à saúde, já que,
com o tempo, os materiais se desintegram e formam um caldo de metais pesados que
contaminam as pessoas, especialmente via lençol freático.
Já a RoHS
proíbe o uso de seis substâncias em produtos eletroeletrônicos fabricados
localmente e importados para a região: cádmio, mercúrio, cromo, chumbo e
retardantes de chamas, como a bromo bifelina, que é cancerígena e
bioacumulativa.
De acordo com Marcus Piaskowy, da Logistik Consulting, a
questão do lixo eletrônico teve como marco uma pesquisa europeia realizada em
2002 que avaliou cordões umbilicais para saber o nível de intoxicação da
população. Foram encontradas 287 substâncias que não deveriam estar ali, sendo
180 cancerígenas e 217 maléficas ao sistema nervoso. Boa parte desse problema
estava ligada à incineração do lixo que despejava toxinas no ar.
A partir
de então, lixo eletrônico passou a ser um tema levado mais a sério. “Quem paga é
o poluidor, que se torna responsável pelo ciclo de vida, custo de coleta,
tratamento e reciclagem do produto sob pena de multas altas. Na Alemanha, por
exemplo, chega a 50 mil euros por infração”, conta Piaskowy. Outro fator
preocupante é o fato de que o lixo eletrônico europeu soma quase 10 milhões de
toneladas por ano e tende a dobrar a cada dez anos, graças à vida útil cada vez
menor dos aparelhos e à cultura de consumo desenfreado.
É claro que
montar uma estrutura de LR exige uma injeção de recursos e a solução adotada
pelos europeus foi taxar os produtos eletroeletrônicos em seu preço final de
forma que, quando a vida útil do produto esgotar, esse valor pago a mais, que
esteve aplicado durante esse tempo, financie o processo. Os produtos quebrados e
inservíveis dispostos no mercado também são recolhidos e tratados. A verba vem
de todo o mercado: cada empresa dá contribuições proporcionais ao seu market
share.
Outras medidas são a inclusão de orientações sobre o descarte
correto dos produtos nos manuais de instrução e a obrigatoriedade da máxima:
quem vende tem de receber.
O CASO BRASILEIRONo
Brasil, não existe uma legislação federal que obrigue o fabricante a receber
seus produtos de volta depois que eles perderam suas funções, mas, sim, ações
pontuais pelo país como no Paraná e as propostas em análise de Belo Horizonte,
em Minas Gerais, e no Rio de Janeiro.
Mas está em trâmite um projeto de
lei que institui uma
Política Nacional de Resíduos Sólidos, fundamental
para unificar e estabelecer parâmetros que norteiam os rumos da Logística
Reversa em terras tupiniquins. “Colaboramos com essa proposta que é mais
genérica e vai precisar ser regulamentada setor por setor. Essa política
nacional tenta agregar os muitos projetos de lei voltados para sustentabilidade
espalhados pelo país para reunir diretrizes genérica”, explica o professor e
presidente do
Conselho
de Logística Reversa do Brasil, Paulo Roberto Leite.
O
especialista aponta alguns inibidores que merecem atenção especial do Estado
como as legislações que não auxiliam e as bitributações em vários momentos das
cadeias reversas. “Se o governo quiser agregar essa mentalidade, deve
privilegiar esse tipo de inibidor. Conhecimento também é um nó. As próprias
empresas não mapeiam muito bem quanto custa e não estabelecem parâmetros”,
diz.
Uma brecha na legislação, segundo Saraiva, é que ela imputa
responsabilidade ao fabricante, mas não cria de forma clara uma regra para quem
importa e comercializa no país. Ao contrário, para internalizar um produto
brasileiro na França, por exemplo, existem várias diretrizes a serem seguidas,
como a WEEE e a RoHS.
ESTÍMULOO Programa de
Substituição e Promoção de Acesso da Refrigeradores Eficientes, do governo
federal, pretende substituir 10 milhões de geladeiras das famílias de baixa
renda em um prazo de dez anos. Além de estimular as remanufaturas, as
recicladoras e a Logística Reversa, a ação objetiva dar oportunidade às famílias
que ganham até dois salários mínimos por mês de terem seu primeiro refrigerador
eficiente e ecológico, sem CFC.
“Existe o componente ambiental e o
social. Estima-se que os gastos com chuveiro e geladeira somem cerca de 50% dos
gastos com energia elétrica nessas residências”, afirma o coordenador do
Programa, Danilo Furtado.
Mais da metade dos produtos de Linha Branca
(55%) são trocados ao final de sua vida útil, alguns com eficiência energética
ainda menor, continuam a ser utilizados. Por isso, a intenção é estimular, por
meio de propostas diferenciadas. Uma delas seria um desconto significativo na
hora de adquirir esse novo produto caso o cliente entregasse seu antigo
refrigerador para ser desmontado e reinserido no ciclo produtivo.
“Alguém
precisa pagar a conta da LR e o governo vai bancar esse custo até o programa
ganhe escala”, diz Furtado. A outra etapa do Programa, ainda sem previsão de
início, será facilitar a compra dessas geladeiras pelos aproximadamente três
milhões de brasileiros que ainda não dispõem do equipamento. Dessa forma,
benefícios como o ganho no segmento alimentar e na saúde também são
esperados.
Espera-se que o conjunto de medidas recolham dez milhões de
geladeiras, eliminem cinco mil toneladas de CFC e economizem 1,6 bilhão de
investimentos por pelo menos 20 anos na construção de usinas
hidrelétricas.
Sugestão de leitura:Logística Reversa
– meio ambiente e competitividade, de
Paulo Roberto Leite (Pearson Education no Brasil,
2003)
Este foi o primeiro livro lançado sobre o assunto na América do Sul. A
obra traz conceitos e valores fundamentais para a execução da Logística reversa
e é indicado para quem já domina o processo, mas busca aperfeiçoar vantagens
competitivas e oportunidades de negócios.
*Algumas informações foram
colhidas durante o 1º Fórum Internacional de Logística Reversa, realizado no dia
13 de maio de 2009, em São Paulo, pelo Conselho de Logística Reversa do
Brasil.
Leia também: Eterno regresso Lixo eletrônico: consumidores fazem toda
diferença Consumismo gera lixo Virou lixo. E agora?
Logística é um processo que pode ser dividido em várias etapas: envolve
compra e venda, devolução de mercadoria por motivo de desistência ou de defeito
e, finalmente, se preocupa com o destino de um produto ao final de sua vida
útil. A preocupação da Logística Reversa (LR) é fazer com que esse material, sem
condições de ser reutilizado, retorne ao seu ciclo produtivo ou para o de outra
indústria como insumo, evitando uma nova busca por recursos na natureza e
permitindo um descarte ambientalmente correto. Parece simples e inteligente, mas
o processo ainda não funciona bem.
Nos Estados Unidos, as pessoas
normalmente têm duas ou três garagens em casa, sendo uma delas desviada de sua
função principal: vira depósito de entulhos. Boa parte dele é formada por
equipamentos velhos e sem uso que estão abandonados - mas guardados - porque não
se sabe o que fazer com aquilo.
Quem conta isso é Gailen Vick, presidente
da RLA -
Reverse Logistics Association, um especialista de mercado que
conhece bem os gastos do país com Logística Reversa de mais de US$ 750 bilhões
por ano mas que afirma, categoricamente, que as empresas não prestam muita
atenção nisso, especialmente porque não têm consciência de quanto dinheiro
poderia ser economizado com a adoção da prática.
“Ser ambientalmente
correto afeta a satisfação do cliente. Se você não faz porque é ambientalista,
faça pelo lucro e pela imagem corporativa. O que é lixo, hoje, pode valer
dinheiro se for bem empregado no futuro”. Mas além do desconhecimento do
assunto, existe ineficiência na própria implementação da LR, que exige, de fato,
uma estrutura complexa para recolher, armazenar e tratar resíduos e um
investimento inicial alto.
“E quais são as ferramentas usadas para medir
a eficiência da Logística Reversa? Se você não sabe mensurar, como vai falar que
tem um problema?”, questiona. De acordo com Vick, nem mesmo os CEOs sabem muito
bem como executar o processo, por isso, eles devem ser educados sobre os valores
recuperados, pela própria cultura da empresa.
Logística Reversa é a
estratégia que, na visão de André Saraiva, diretor de Responsabilidade
Socioambiental da Abinee – Associação Brasileira da Indústria Elétrica e
Eletrônica – permite um aumento de participação da empresa no
mercado a partir de um programa de take back. “A conscientização e a destinação
ambientalmente adequada de um produto pode trazer, a esse consumidor, o
entendimento sobre uma marca muito mais responsável e direta do que qualquer
comercial. É uma aposta no consumo consciente”,
diz.
CONSCIENTIZAÇÃO BASTA?Esse é outro ponto
fundamental. Além da responsabilidade dos fabricantes ao se desfazerem daquilo
que criaram com o menor impacto para o meio ambiente, precisa haver o compromisso
dos clientes de fazer a melhor compra e não se guiar apenas pelo menor preço. A
LR reversa começa no momento em que o produto é produzido, se estende ao ato da
compra e reinicia o ciclo quando é devolvido como matéria-prima para ser
reinserido.
Há inúmeras empresas que diminuíram o tamanho das embalagens
de seus produtos sem afetar seu conteúdo para gerar menos lixo, que montam os
equipamentos que comercializam pensando na facilidade que terão em desmontá-los
para reciclá-los depois e claro que procuram utilizar materiais reciclados e,
principalmente, recicláveis em sua confecção.
Nenhum comentário:
Postar um comentário